segunda-feira, 4 de junho de 2012


Campus

I

Eram 4h42min de sábado, eu, como um bêbado equilibrista estava por cair. Na festa só restavam copos de plástico espalhados pelo chão e o gosto amargo de cigarro barato. A música parecia ser a mesma desde o início da noite, as mulheres todas com o mesmo semblante e nenhuma prendia o meu olhar. Não conseguia identificar nada mais que borrões, manchas de tinta, quadros abstratos tudo como uma mistura de pó, batom e suor.
Já estava dando “a batalha” por encerrada, até que de repente uma camponesa vestindo trajes de pano longo, sandálias de couro gastado e uma faixa laranja na cabeça, reavivou meu desejo por recolocar minhas tropas em campo de guerra. Enquanto arriscava trocar algumas palavras com a moça, sentia a espuma quente da cerveja desafiar meu organismo. Vômito, náusea ou timidez. Talvez tudo, somado a um inegável desejo de seguir a inconseqüente trama da melancolia.
Vivi um período de anos em alguns meses, crescia como uma criança que troca de sapato todo o mês. A cada dia me deparava com novos caminhos a seguir e, em contrapartida, tinha a certeza de que logo aquele momento iria terminar. A morte da liberdade rondava meus desejos de festa. Por isso, precisava agir rápido, deveria coletar informações que permitissem um vínculo sólido com um objeto no qual pudesse expressar o ódio e o amor que vivia dentro de mim.

II

Eram 15h51min de sábado, acabava de acordar, ainda atordoado com os efeitos da noitada, sentia o forte cheiro de vômito que exalava do meu velho All Star. Provavelmente eu pisara em alimentos expulsos pela boca podre de alguém. Sai do quarto e fui ao banheiro para lavar o rosto, foi quando uma mancha vermelha chamou minha atenção. No pulso esquerdo vejo a inscrição de um endereço eletrônico, nome de mulher comum, talvez de uma camponesa.
Horas depois, enquanto preparava minha refeição, um humilde prato de macarrão com presunto, pensava em um jeito de entrar em contato com aquele endereço que ainda marcava, como um corte, o meu pulso. No sofá da sala, com o prato no colo, cortava laços de massa ainda crua e servia-me de um vinho tinto de colônia. Estava perplexo, abatido, pálido, desfigurado. Apenas alguns sinais de vida ainda lutavam dentro de mim. A curiosidade e o desafio imposto pelo jogo da sedução prendiam minha atenção, provocavam meus sonhos e incitavam meu prazer em planejar uma estratégia de conquista.
A jovem que estava inscrita no meu pulso parecia ter invadido minha circulação sanguínea e agora controlava minhas funções vitais. Refletindo sobre a cena matinal na qual a conheci, me dei conta de que seu estilo camponês representava uma dessas jovens cheia de sonhos e discos antigos. Deve fumar baseado e queimar incensos de lavanda pelos cômodos do apartamento alugado pelo pai. Nada que fosse um impedimento, pelo contrário, até era um cenário interessante de freqüentar.
Passaram-se semanas e aos poucos outras moças voltaram a habitar minha consciência. As mais próximas pareciam muito fáceis e as que se encontravam distantes pareciam complexas demais. A certeza que tinha era de que precisava de uma mulher que amparasse a incessante vertente de vontades, loucuras e devaneios. Estava vazando, como se tivesse sido atingido no peito por um tiro e com as mãos tentasse estancar um fluxo infinito de sangue.
Confesso que já tinha tentado curar essa ferida em ambientes perfumados com incensos de lavanda, o que até foi divertido, mas muito pouco para a bruta força que corre dentro de mim. O que para meu ego até fez bem, mas justamente esta palavra gerou um conflito imenso e mais uma vez me senti preso na burocracia do jogo do amor. Também confesso que amor era um pouco demais. Aliás, essas moças de incenso de lavanda e brinco de origem animal são um bocado carentes e se escondem atrás de enormes lingeries. É claro que até me sentia atraído por uma mística inicial, mas logo me perdia olhando para uma moça de calça justa e mal intencionada.

III

A camponesa em questão era um desafio. Acreditava que os seus incensos poderiam não ser de lavanda e que simplesmente possuíam a função de ocultar o cheiro da maconha. Talvez apenas borrifasse desodorante, abrisse as janelas e deixasse o vento minuano dar conta do serviço. Quanto aos seus brincos, se não me engano eram de prata barata, o que representa uma pessoa não tão carente. Quanto à lingerie nada posso afirmar, apenas torço que seja de tamanho suficiente.
Sim! Há dias ela rondava meus pensamentos. Precisava desvendar esse mistério, não só o relacionado às roupas íntimas, mas também o de que ela poderia barrar meu circuito desenfreado dos últimos tempos. Lutava pelo limite, por um esbarro confortável. Como uma proteção de pneus que se instala às margens de uma pista de corrida. Algo que segure o forte impacto de um descontrole com uma brutal maciez.
Em uma tarde de quarta-feira ensolarada, escuto um aviso de mensagem em meu celular. Era ela, respondendo o convite que tinha feito há algumas semanas. Eu havia perguntado se poderíamos combinar de tomar um chimarrão e dividir alguns cigarros, estes de fumar escondido na universidade. Ela então respondeu que aquela tarde seria ideal para tal programação. Assim que terminei de ler fiquei paralisado, senti que não poderia perder tempo, tinha de agir.

IV

O clichê parecia conduzir bem o diálogo, e até surpreendia os participantes, que fingiam conhecimento mútuo e amigos em comum. Eles até tinham semelhanças, possuíam a mesma fonte de fumo e métodos parecidos de adquirir capital, sustentados pelos pais, viviam o dilema da castração financeira.
Os assuntos estavam próximos do esgotamento, precisavam ocupar os lábios de alguma forma. Os cigarros já estavam fazendo forte efeito. A bebida alcoólica parecia um ingrediente necessário, para fluir novos fatos históricos. A noite começava colocar suas garras a mostra. Os telefones tocavam, propostas chegavam e tinham respostas suspensas. As horas passavam e iniciava-se o ensaio de uma fuga, a jovem camponesa parecia estar cansada da burocracia burguesa evocada pelo rapaz.
Ele devia tomar uma atitude aguerrida e brava, afinal ela era moça da fronteira, tinha um lado xucro adormecido. Foi então que a guria avisou que precisava ir ao banheiro, sorrateiramente, como uma forma de esfriar o que parecia morno.


V

- Espera! Com uma das mãos segurei firme o seu braço esquerdo e com a boca preenchi os lábios da pinguaxa. Virei o jogo! Fiz o gol no último instante, empurrei para a rede com a ponta da alma, mesmo jogando fora de casa, sentia o calor da torcida. Depois foi só correr para o abraço, beijos e amassos...
A camponesa dispertou após meus segundos de glória, acreditava estar próxima de um Robin Wood contemporâneo, alguém que portava a ousadia do herói dos pobres. Decidimos fazer algo da noite e então fomos até sua aldeia.
O clima era outro, agora tínhamos assuntos, as barreiras foram rompidas, eu já estava até sendo apresentado como alguém que realmente existia. A trilha sonora de Jorge Bem pedia: Arrasta a sandália, arrasta até gastar... Era noite, temia que todos virassem abóboras. O tempo passava da melhor forma, meus olhos pintavam cada cena, já sabia que o momento devia ser eternizado. Algo mostrava que aquele dia não acabaria ali.
Ao acordar só restaram borrões de tinta no teto do meu quarto, que precisava de reparos na pintura, talvez o laranja desse vida ao recanto das minhas fantasias. Havia dormido com a televisão ligada, se encerrava um filme de época, estava atrasado para mais um dia no campus.



R. Rosa



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