A escritora passa o lápis no olho. Será que também sabe escrever com este instrumento tão primoroso? A escritora usa sapato sem meias e garante que exala perfume de rosas entre os dedos suados. Sentada, com as pernas cruzadas e lisas faz pose de moça refinada, nascida em bairro de periferia. Descobriu-se rica na adolescência, frequentou as melhores escolas, estudou violino no método Suzuki. Hoje, quando sair daqui vai cursar literatura com seu professor particular. É fã de Chico Buarque e por isso acredita ser “malandra” e até mesmo revolucionária.
Há dez anos estava escorada no portão fechado da escola esperando o último papai aparecer. O empresário promissor comia a secretária no seu horário de almoço, chegando em casa no momento que deveria retornar ao trabalho. Beijava a esposa e os filhos com saliva culpada, repassando o gosto do canalha profissional.
A moça que deseja ser escritora vivia o percurso entre a escola e sua casa como uma menina mimada, justificando para o pai o desinteresse pelos meninos da escola. Atualmente ela se esforça para ser alguém interessante e se arrepende por ter impedido o avanço das mãos de seus primeiros namorados. Internamente adorava quando era prensada contra a parede sendo roçada, esfregada pelos culhões ouriçados dos jovens, todos repetentes e de má fama. Vivia o drama de se entregar completamente para qualquer vagabundo.
Levanto-me, não suporto mais dividir o mesmo espaço físico com esta moça de fala fina, cabelo comprido e moderno. Quando jovem já imaginava que estas garotinhas mimadas um dia iriam se arrepender, mas escrever sobre isso é muita petulância. Penso que ela poderia saborear a própria língua, empurrando-a ao estômago com ajuda de um copo sujo repleto de conhaque quente. Vou até sua mesa, cuspo na altura dos seus seios, vingando todos aqueles jovens que um dia foram castrados pela mão que agora teima em escrever.
R. Rosa
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