domingo, 27 de maio de 2012

Gole quente de saliva amarga


A escritora passa o lápis no olho. Será que também sabe escrever com este instrumento tão primoroso? A escritora usa sapato sem meias e garante que exala perfume de rosas entre os dedos suados. Sentada, com as pernas cruzadas e lisas faz pose de moça refinada, nascida em bairro de periferia. Descobriu-se rica na adolescência, frequentou as melhores escolas, estudou violino no método Suzuki. Hoje, quando sair daqui vai cursar literatura com seu professor particular. É fã de Chico Buarque e por isso acredita ser “malandra” e até mesmo revolucionária.
 Há dez anos estava escorada no portão fechado da escola esperando o último papai aparecer. O empresário promissor comia a secretária no seu horário de almoço, chegando em casa no momento que deveria retornar ao trabalho. Beijava a esposa e os filhos com saliva culpada, repassando o gosto do canalha profissional.
A moça que deseja ser escritora vivia o percurso entre a escola e sua casa como uma menina mimada, justificando para o pai o desinteresse pelos meninos da escola. Atualmente ela se esforça para ser alguém interessante e se arrepende por ter impedido o avanço das mãos de seus primeiros namorados. Internamente adorava quando era prensada contra a parede sendo roçada, esfregada pelos culhões ouriçados dos jovens, todos repetentes e de má fama. Vivia o drama de se entregar completamente para qualquer vagabundo.
Levanto-me, não suporto mais dividir o mesmo espaço físico com esta moça de fala fina, cabelo comprido e moderno. Quando jovem já imaginava que estas garotinhas mimadas um dia iriam se arrepender, mas escrever sobre isso é muita petulância. Penso que ela poderia saborear a própria língua, empurrando-a ao estômago com ajuda de um copo sujo repleto de conhaque quente. Vou até sua mesa, cuspo na altura dos seus seios, vingando todos aqueles jovens que um dia foram castrados pela mão que agora teima em escrever.

R. Rosa

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Mudo

No entrelugar da mudança,
Vejo-me dentro de uma caixa
De cimento.
Perdido entre móveis que
Dependem do meu movimento.
Assim, circulo no espaço
Entre a parede e o muro
Onde dançam passado e futuro
Ao mudo som do quarto, no escuro...

R.Rosa

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Óculos de prata
O meu óculos do coração, partido ao meio... Metade pra ela e metade pra ela.
Pronto resolvido! Estava tudo dividido, elas e o óculos.
Um olhar para cada... Um sentimento de facada, dor, dúvida... Coisa de jovem! (diria seu Euzébio).
Um quase e despercebido corte se ensaiava no elo materno. Mas eram jovens! Não era a velha e o menino... Como consertar depois, o que já nascera errado.
Um óculos, partido ao meio... Olhares divididos...
Caos e olhos fechados.

R.Rosa

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Andares

Ando em círculo ando circulando.
Ando e vago ando vagando.
Ando em grupo ando em bando.
Ando passivo ando e não mando.
Às vezes ando, estou parando.

R.Rosa

sábado, 18 de junho de 2011

Erva do diabo
Onde há fumaça, há Combi! Sim.
O motorista acreditava estar levando porcos. E não era só efeito da erva, era o efeito da massa, da galera...Vamô que não dá nada!
Na curva da rua, a dúvida do escuro... Sim na noite poucos se responsabilizam, omite-se o culpado, ninguém o vê.
Não pode ser grama molhada... Não pegaria fogo!
Um pequeno ponto luminoso circula entre os dedos jovens e da mão catequizada vem à iniciativa. O ponto! A partida!
Fuma aí e espera... Um índio chamado Dom Juan irá lhe chamar.

R.Rosa

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Encontro

Trancado no eu,
No banheiro,
No útero materno.
Afastando-se
Para sempre
Do mundo externo.
Guardava em si,
O silêncio de
Um buraco fechado.
O impulso do pulso
Um tio! Um tiro!
No chão foi encontrado.

R. Rosa

sexta-feira, 27 de maio de 2011

O castigo do crime

Do crime da saia jeans e blusa vermelha, poucos sabem...
Talvez só eu... Talvez...
Vez eu e minha culpa!
Certo que muitos assistiram... E como não?
Meu primeiro assassinato moral importante.
Lembro do telefone azul que em surdina recebia informações...
O meu segredo era a tortura, a saia um caminho, uma aventura para minhas mãos...
Acreditava saber o que estava fazendo, passava a mão trêmula pelo corpo magro... de baixo para cima...até as costas...sentia o vermelho da blusa escorrendo no meu pulso...
O sangue seco, e o lábio molhado.


R.Rosa